O Nvcleo do MercadoEdição 29Análise macro

A eleição mais apertada da história

Pesquisas, apostas e 30 anos de números para atravessar outubro sem torcida

Lula e Flávio Bolsonaro chegam ao 1º turno separados por 4 pontos nas pesquisas. Nas plataformas de aposta, o senador é favorito. Reunimos o que importa para o investidor, sem tomar partido.

Roger Gouveia
Roger GouveiaEstrategista Macro · Mesa Proprietária
Outubro de 202612 min de leitura

Em 30 segundos

  • 1
    Empate inédito: o Datafolha mostra Lula com 42% e Flávio Bolsonaro com 38% no 1º turno, e 48% a 45% na simulação de 2º turno, dentro da margem de erro de 2 pontos.
  • 2
    Apostas divergem: na Kalshi e na Polymarket, Flávio tem 61% e 62% de chance de vencer; o favorito da Polymarket acertou 13 de 15 eleições no dia da votação.
  • 3
    Prêmio nos preços: o dólar está em R$ 5,22 e os juros futuros longos pagam mais de 14% ao ano, acima da Selic de 13,75%; a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB.
  • 4
    30 anos de Real: a Bolsa subiu e caiu sob governos de todos os campos: ambiente externo, inflação e fiscal explicaram mais do que o nome eleito.
Em 13 eleições presidenciais por voto direto desde 1945, o Brasil nunca chegou à véspera do 1º turno com empate na liderança.

O Datafolha divulgado na quinta-feira mostra Lula com 42% e Flávio Bolsonaro com 38%, diferença no limite da margem de erro. Quem coloca dinheiro na mesa enxerga outro favorito: na Kalshi e na Polymarket, plataformas de apostas sobre eventos, Flávio tem 61% e 62% de chance de vencer.

Neste domingo, 4 de outubro, 158,7 milhões de eleitores começam a dizer quem leu melhor o país. Esta edição reúne o que importa para o investidor, sem tomar partido.

Primeira vez em 81 anos

Em 1989, 2002 e 2014, o líder estava isolado e a dúvida era quem iria ao 2º turno com ele. Em 1994, 1998, 2006 e 2022, a dúvida era se haveria 2º turno. Em 2026, ninguém sabe quem termina o domingo em primeiro lugar.

O retrato

Por que pesquisa e aposta apontam favoritos diferentes?

A divergência tem explicação simples. A pesquisa pergunta em quem o eleitor pretende votar no 1º turno. O mercado preditivo precifica quem vai tomar posse em 5 de janeiro, o que depende do 2º turno, da transferência de votos e da decisão dos indecisos.

Eleitor x apostador: intenção de voto e probabilidade de vitória, em % · Fonte: Datafolha (28/09 a 1º/10/2026), Kalshi e Polymarket em 1º/10/2026 · toque para ampliar

Na simulação de 2º turno do Datafolha, Lula tem 48% e Flávio, 45%. Os 3 pontos ficam dentro da margem de erro, de 2 pontos para mais ou para menos. Em abril, o mesmo instituto mostrava 39% a 35%. Em seis meses de campanha, quase nada mudou entre os dois primeiros colocados.

O que decide o 2º turno

Os demais candidatos somam 13% no Datafolha. Para onde vão esses votos é a pergunta que as plataformas tentam responder. A avaliação do governo entra nessa conta, com 41% de ruim e péssimo contra 35% de ótimo e bom.

Mercados preditivos

Os mercados de apostas acertam eleições?

Até 10 de setembro, Lula liderava na Polymarket com 52% de chance. No dia seguinte, Flávio assumiu a frente e não saiu mais. Na quinta-feira, o senador bateu seu recorde na plataforma, acima dos 60,6% de 22 de setembro. A Kalshi seguiu trajetória parecida.

A virada e o acerto: marcos da Polymarket e taxa de acerto do favorito conforme a distância até a eleição · Fonte: Polymarket, XP Política e Kalshi · toque para ampliar

Um levantamento da XP Política com 15 eleições pelo mundo mostra que o favorito da Polymarket acerta mais quanto mais perto do pleito. No dia da votação, acertou 13 vezes; Holanda e Polônia foram as exceções. A Kalshi, com mais de 2,2 milhões de contratos analisados desde 2021, registra acerto de 90,6% uma semana antes.

13 de 15

eleições em que o favorito da Polymarket no dia da votação venceu

Como funcionam os mercados preditivos

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Interativo

Como funciona

  • Cada contrato paga US$ 1 se o candidato vencer e zero se perder
  • Um contrato a US$ 0,62 equivale a 62% de chance
  • O preço muda conforme o dinheiro entra de cada lado

Limites

  • Quem aposta não forma uma amostra do eleitorado
  • Apostas grandes podem mover a cotação
  • 62% de chance ainda significa errar quase 4 vezes em 10

O mapa

Onde a eleição será decidida?

O Nordeste dá a Lula vantagens de até 39 pontos. Sul, Centro-Oeste e o cordão oeste do Norte (Acre, Rondônia e Roraima) entregam a Flávio margens parecidas. Com os extremos se compensando, a decisão fica no Sudeste, onde vive 42,6% do eleitorado e as diferenças não passam de 7 pontos.

Quem lidera em cada estado: vantagem em pontos percentuais · Fonte: Quaest (PI: Datafolha), pesquisas estaduais de set/2026 · toque para ampliar
O peso de cada região: participação no eleitorado e quem lidera em cada bloco · Fonte: Quaest e Datafolha · toque para ampliar

Em relação a 2022, o Rio é a principal mudança. Jair Bolsonaro venceu no estado por 10 pontos. Flávio aparece 7 pontos à frente, num momento em que o PL perdeu o controle da máquina estadual após a inelegibilidade de Cláudio Castro e a prisão de Rodrigo Bacellar. Em São Paulo e Minas, o quadro repete o resultado de quatro anos atrás.

Os trunfos de cada lado e os riscos comuns

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Interativo

Trunfos de Lula

  • Cerca do dobro das intenções de voto de Flávio no Nordeste
  • Reajuste de 15% no Bolsa Família na reta final
  • Discurso de soberania após as sanções dos EUA (jul/2025)
  • Proibição das bets, tema de maior repercussão nas redes

Trunfos de Flávio

  • Folga no Sul, no Centro-Oeste e nas regiões do agronegócio
  • PL lidera a disputa estadual em PR, RS, SC, RO e RR
  • Força do voto evangélico
  • Avaliação do governo com saldo negativo

Riscos que atingem os dois lados

Vazamentos de investigações ligadas aos casos Master e INSS alcançaram nomes dos dois campos, incluindo Flávio e um filho de Lula. A crise entre ministros do STF gerou decisões contraditórias sobre a campanha e levou ao cancelamento do debate da TV Globo. Pela primeira vez, a política americana entrou na disputa, com sanções, encontros em Washington e a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.

O mercado

Como a Bolsa e o dólar reagem em ano de eleição?

A tensão já aparece nos preços. O índice de volatilidade da B3 opera acima de 32 pontos e o dólar subiu quase 1% na quinta-feira, para R$ 5,22. Os juros futuros de prazo longo pagam mais de 14% ao ano, acima da Selic de 13,75%, sinal de prêmio de risco embutido. A edição O juro americano virou o piso do mundo explica por que os juros longos resistem mesmo com os cortes.

O retrato do mercado na véspera

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Indicador↕Nível↕Referência↕
Ibovespa187 mil pontos1º/10, alta de 16% no ano
DólarR$ 5,221º/10, queda de 5% no ano
Selic13,75%Após 5 cortes desde março
Dívida bruta / PIB82,9%Agosto
Bolsa e dólar nas eleições: variação anual no ano eleitoral e no primeiro ano do mandato seguinte · Fonte: B3 e Banco Central (PTAX) · toque para ampliar

O histórico mostra ganhos e perdas no ano seguinte à eleição sob governos de todos os campos. 2002 é o caso extremo, com o dólar subindo 52% no ano e a Bolsa quase dobrando em 2003. Em 2011 e 2015, a queda veio com a desaceleração da economia. O ambiente externo, a inflação e o fiscal explicaram mais do que o nome eleito.

O que acompanhar daqui para frente

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Calendário

1º turno em 4 de outubro. Eventual 2º turno em 25 de outubro. Posse em 5 de janeiro de 2027, primeira sob a nova regra constitucional.

Fiscal

Quem vencer herda dívida bruta de 82,9% do PIB, alta de 4,2 pontos só em 2026. A credibilidade da agenda fiscal tende a definir o rumo dos juros longos em 2027.

Juros

O Focus projeta Selic de 13,50% no fim do ano e inflação (IPCA) de 4,99% em 2026, acima do teto da meta. O espaço para cortes depende de como o mercado ler o vencedor.

Câmbio e Bolsa

O real acumula ganho de 5% no ano e o Ibovespa sobe 16%. A volatilidade tende a se concentrar entre os dois turnos. Para entender o que move o câmbio, veja a edição Dólar a R$ 5,00.

30 anos de Real

Como cada governo se saiu nos mesmos números?

Para ir além da campanha, comparamos os nove mandatos desde o primeiro governo FHC com os mesmos critérios. Nenhum presidente governou no mesmo mundo. Crises externas, preço das commodities e a herança do antecessor pesam tanto quanto as escolhas feitas em Brasília.

30 anos de Real em 6 indicadores, de 1995 a 2026 · Fonte: IBGE, Banco Central e B3 · toque para ampliar

Cada governo diante dos mesmos números

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Mandato↕PIB (média/ano)↕IPCA (média/ano)↕Selic no fim↕Dívida líquida↕Dólar↕Ibovespa em R$↕Ibovespa em US$↕
FHC 1 (1995 a 1998)2,6%9,7%31,20%+5,3 p.p.+43%+56%+9%
FHC 2 (1999 a 2002)2,4%8,8%25,00%+22,1 p.p.+192%+66%−43%
Lula 1 (2003 a 2006)3,5%6,4%13,25%−13,4 p.p.−39%+295%+552%
Lula 2 (2007 a 2010)4,6%5,1%10,75%−8,5 p.p.−22%+56%+100%
Dilma 1 (2011 a 2014)2,4%6,2%11,75%−5,4 p.p.+59%−28%−55%
Dilma 2 (2015 a 2016)−3,4%8,5%13,75%+13,5 p.p.+23%+20%−2%
Temer (2017 a 2018)1,6%3,4%6,50%+6,7 p.p.+19%+46%+23%
Bolsonaro (2019 a 2022)1,4%6,2%13,75%+3,3 p.p.+35%+25%−7%
Lula 3 (2023 a 2026)2,7%4,7%13,75%+13,0 p.p.0%+71%+71%

PIB e IPCA pela média anual do período. Selic de 1998 pela taxa efetiva de dezembro. Dívida líquida em pontos do PIB (série antiga do BC até 2000). Dólar e Ibovespa de fim de ano a fim de ano. Lula 3 usa dados de 1º/10/2026 e projeções do Focus para PIB e IPCA de 2026.

Os maiores PIBs médios ficam com Lula 1 e Lula 2, embalados pelo superciclo das commodities, enquanto FHC 2 carrega a desvalorização de 1999 e o maior salto da dívida líquida. A pior recessão aparece em Dilma 2, e a menor inflação média fica com Temer. Bolsonaro atravessou a pandemia e entregou dívida bruta menor que a recebida, e Lula 3 combina Bolsa em alta com dívida também em alta.

IDH, desigualdade e fome

Os indicadores sociais melhoram no longo prazo e recuam em recessões e na pandemia. O IDH foi de 0,666 em 1995 para 0,786 em 2023. O Gini, que mede a desigualdade de renda, caiu de 0,595 para 0,503 em 2024, e o IBGE registrou leve alta em 2025.

O lado social: IDH (PNUD), índice de Gini (Banco Mundial) e Mapa da Fome da FAO · Fonte: PNUD, Banco Mundial e FAO · toque para ampliar

O lado social de cada mandato

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Mandato↕IDH↕Gini↕Dívida bruta↕Mapa da Fome↕Contexto externo e choques↕
FHC 10,659 → 0,6800,595 → 0,596n.d.No mapaCrises do México (1995), da Ásia (1997) e da Rússia (1998)
FHC 20,680 → 0,7000,596 → 0,581n.d.No mapaDesvalorização de 1999, apagão (2001), Argentina, eleição de 2002
Lula 10,700 → 0,7250,581 → 0,556n.d.No mapaSuperciclo das commodities, China acelerando
Lula 20,725 → 0,7480,556 → 0,537−3,7 p.p.SaindoCrise financeira global (2008)
Dilma 10,748 → 0,7650,529 → 0,521+4,5 p.p.ForaFim do boom das commodities
Dilma 20,765 → 0,7650,521 → 0,534+13,5 p.p.ForaRecessão, crise política e impeachment (ago/2016)
Temer0,765 → 0,7740,534 → 0,539+5,5 p.p.ForaTeto de gastos, greve dos caminhoneiros (2018)
Bolsonaro0,774 → 0,7800,539 → 0,519−3,6 p.p.De voltaPandemia (2020), guerra na Ucrânia, inflação global
Lula 30,780 → 0,7860,519 → 0,503+11,2 p.p.ForaJuros globais altos, tarifas dos EUA (2025)

IDH e Gini no início e no fim de cada período (ano disponível mais próximo). Dívida bruta disponível a partir de 2006. Mapa da Fome pela situação no fim do período, segundo a FAO.

Dúvidas frequentes

O que os investidores mais perguntam

Quando são o 1º e o 2º turno da eleição de 2026?
O 1º turno é em 4 de outubro. Um eventual 2º turno acontece em 25 de outubro, e a posse do eleito será em 5 de janeiro de 2027, a primeira sob a nova regra constitucional.
Por que as plataformas de aposta dão favoritismo a Flávio se ele está atrás nas pesquisas?
Porque medem coisas diferentes. A pesquisa pergunta em quem o eleitor pretende votar no 1º turno. O mercado preditivo precifica quem vai tomar posse, o que depende do 2º turno, da transferência de votos e da decisão dos indecisos. Na simulação de 2º turno do Datafolha, a diferença de 3 pontos fica dentro da margem de erro.
A Bolsa sobe ou cai depois da eleição?
O histórico mostra ganhos e perdas no ano seguinte à eleição sob governos de todos os campos. O Ibovespa subiu 97% em 2003 e 44% em 2007, caiu 18% em 2011 e 13% em 2015, e subiu 32% em 2019 e 22% em 2023. O ambiente externo, a inflação e o fiscal explicaram mais do que o nome eleito.

O que isso significa para o seu dinheiro?

Pesquisa e aposta apontam favoritos diferentes, e as duas leituras cabem na margem de erro do 2º turno. Parte da incerteza já está nos juros longos e no câmbio. A outra parte só sai do preço quando as urnas falarem.

Em 30 anos de Real, a Bolsa subiu e caiu sob governos de todos os campos. Carteira bem construída costuma render mais do que apostar no resultado da urna.

Se a disputa seguir apertada até 25 de outubro, a volatilidade deve continuar alta em câmbio e juros longos, e a liquidez na carteira ganha valor.

Se o resultado ficar claro cedo, o prêmio de risco tende a se ajustar rápido, e a atenção passa para a agenda fiscal de quem vencer.

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Roger Gouveia

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Roger Gouveia

Estrategista Macro · Mesa Proprietária · Nvcleopar Investimentos

Fontes
  • Datafolha: pesquisa presidencial, 28/09 a 1º/10/2026, 2.506 entrevistas.
  • Quaest: pesquisas estaduais para presidente, set/2026 (PI: Datafolha).
  • Brazil Journal: Flávio será presidente, pelo menos segundo a Kalshi e Polymarket, 1º/10/2026.
  • Valor Econômico: Brasil vai às urnas para a disputa mais acirrada da história do país, 02/10/2026.
  • XP Política: assertividade da Polymarket em 15 eleições.
  • Kalshi: estudo de contratos eleitorais, ago/2026.
  • IBGE: Contas Nacionais, IPCA e PNAD Contínua (Rendimento de todas as fontes 2025).
  • Banco Central do Brasil: SGS (Selic, DLSP, DBGG), PTAX, Copom e Boletim Focus de 28/09/2026.
  • DIEESE: Nota técnica 14 (DLSP 1994 a 2000).
  • B3: Ibovespa. InfoMoney: fechamento de 1º/10/2026.
  • PNUD: Relatório de Desenvolvimento Humano 2025.
  • Banco Mundial: PIP (Gini), via Our World in Data.
  • FAO: O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo (SOFI), edições 2014, 2022 e 2025.

Este material é informativo e não constitui oferta, recomendação ou sugestão de investimento. Rentabilidades passadas não são garantia de resultados futuros.