O Nvcleo do MercadoEdição 26Análise macro

O juro americano virou o piso do mundo

Os treasuries de 30 anos bateram recorde em um quarto de século. Quanto disso chega à Selic?

O Tesouro dos EUA vendeu papel de 30 anos a 5,308% e o mercado secundário chegou a 5,37%, maior nível desde 2007. O Brasil corta juros para dentro e paga mais caro para fora ao mesmo tempo.

Roger Gouveia
Roger GouveiaEstrategista Macro · Mesa Proprietária
Setembro de 202610 min de leitura

Em 30 segundos

  • 1
    Leilão recorde: o Tesouro americano vendeu US$ 22 bilhões em títulos de 30 anos a 5,308%, e o papel chegou a 5,37% no mercado secundário, o maior nível desde 2007.
  • 2
    Três forças: dívida americana de US$ 40 trilhões com déficit de 6% do PIB, Brent acima de US$ 100 e bancos centrais vendendo treasuries (a China saiu de US$ 1,3 trilhão para US$ 633 bilhões).
  • 3
    Piso para a Selic: o treasury de 10 anos em 4,97% mais o prêmio de risco do Brasil limitam a queda dos juros; o DI para janeiro de 2031 está em 14,08%, acima da Selic de 14%.
  • 4
    Na carteira: pós-fixado e ponta curta seguram melhor; prefixados longos e small caps sofrem; NTN-B com juro real de 7,74% é atraente no nível, mas oscila no caminho.
O Tesouro americano colocou US$ 22 bilhões em títulos de 30 anos com rendimento de 5,308%, o custo de captação mais alto em um quarto de século.

No mercado secundário, onde os títulos já emitidos trocam de mãos, o papel chegou a 5,37%, patamar que não se via desde 2007. Esses títulos são os treasuries, a dívida do governo dos Estados Unidos.

Para quem investe no Brasil, a leitura é direta. O juro longo americano funciona como referência para o custo da dívida dos países emergentes. Quando ele sobe, o Tesouro Nacional paga mais, mesmo sem nenhuma mudança na percepção de risco sobre o país.

O que é o piso global dos juros

O rendimento do treasury de 10 anos, hoje em 4,97%, somado ao prêmio de risco que o estrangeiro cobra do Brasil, forma o nível mínimo a partir do qual o juro doméstico consegue cair. Quando esse piso sobe, o espaço de queda da Selic encolhe, independentemente do que acontece na economia brasileira.

O choque

Por que o leilão do Tesouro americano saiu tão caro?

A escalada é contínua e não depende de nenhum evento isolado. Em maio, o Tesouro americano vendeu o papel de 30 anos a 5,046%. Em julho, a 5,058%. Em agosto, a 5,216%. Agora, a 5,308%.

Leilões de 30 anos do Tesouro americano em 2026: taxa de corte de cada leilão, em % ao ano · Fonte: U.S. Department of the Treasury · toque para ampliar

O movimento não é só americano. Do outro lado do Atlântico, o Banco Central Europeu elevou a taxa para 2,5% e projeta a inflação voltando à meta apenas no fim de 2027. Nos Estados Unidos, o mercado já atribui cerca de 71% de probabilidade a uma alta do Fed na próxima reunião, depois do índice de preços ao produtor de agosto.

5,37%

rendimento do treasury de 30 anos no mercado secundário, o maior desde 2007

As causas

Quais forças estão empurrando o juro longo para cima?

Três forças empurram o juro longo americano para cima ao mesmo tempo. A terceira é a mais estrutural e a menos comentada.

As 3 forças que empurram o juro longo

Toque em cada item para ver a explicação

Interativo

O tamanho da dívida

Os Estados Unidos carregam US$ 40 trilhões em títulos e devem fechar o exercício fiscal com déficit de 6% do PIB, perto de US$ 2 trilhões. A oferta de papel cresce sem interrupção, e a agenda de gastos com defesa e transição energética empurra o número para cima.

O petróleo

O Brent voltou a ultrapassar US$ 100 com o conflito no Oriente Médio e o avanço dos houthis sobre as rotas de escoamento do petróleo saudita. O índice de preços ao produtor americano subiu 0,4% em agosto e acumula 5,4% em doze meses.

O diesel subiu 24,1% nos preços ao produtor em doze meses. Combustível caro encarece o frete, e frete caro reaparece no índice ao consumidor com defasagem de poucos meses. É o caminho mais rápido entre uma guerra e a taxa de juros.

A saída dos compradores cativos

Bancos centrais eram compradores cativos de treasury, com horizonte de décadas e pouca sensibilidade a preço. Deixaram de ser. A China reduziu sua posição de US$ 1,3 trilhão para US$ 633 bilhões. A Índia cortou 26% do estoque, para US$ 176 bilhões. O Brasil diminuiu US$ 61 bilhões de exposição.

O congelamento das reservas russas em 2022 e a pressão sobre o Irã mostraram aos demais bancos centrais que título soberano americano também carrega risco político.

A saída dos compradores cativos: participação de bancos centrais no estoque de treasuries e posição da China · Fonte: Benn Steil / Financial Times e U.S. Treasury International Capital · toque para ampliar

Quem entrou no lugar

Hedge funds e investidores focados em ganho de curto prazo hoje respondem pela maior parte do estoque. É dinheiro que entra e sai rápido. Quando o movimento vira, ele vira com força, e a volatilidade do papel mais seguro do mundo passa a ser maior do que a de vários ativos de risco.

O Brasil

Como o juro americano chega à Selic?

O título de 10 anos do Tesouro americano é o benchmark das captações externas de emergentes. Sobre ele, o investidor estrangeiro acrescenta o prêmio que cobra pela solidez da economia e das contas públicas de cada emissor.

Com o treasury mais caro, e mesmo sem piora na percepção sobre o Brasil, a taxa que o Tesouro Nacional paga lá fora tende a subir. No mercado doméstico, o efeito aparece de outra forma: a soma do treasury com o prêmio forma o nível abaixo do qual o juro local não consegue ir, por mais que o Copom corte. Para entender por que os juros no mundo subiram, veja também a edição O fim da era dos juros baixos.

Os números que importam agora

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Indicador↕Nível atual↕Referência↕
Treasury 30 anos5,37%Maior desde 2007
Treasury 10 anos4,97%Maior desde out/2023
Gilt 10 anos (Reino Unido)5,38%Maior desde 2007
Bund 10 anos (Alemanha)3,50%Maior desde 2011
BrentAcima de US$ 100Conflito no Oriente Médio
Selic14,00%Copom em 16/09
DI janeiro de 203114,08%Acima da Selic atual
NTN-B 2035 (juro real)7,74%Prêmio elevado

O Copom se reúne em 16 de setembro com a Selic em 14% e cerca de 95% de probabilidade de corte de 0,25 ponto precificada nas opções da B3. A curva longa segue em outro compasso. O DI para janeiro de 2031 está acima da própria Selic, o que significa que o mercado não acredita que o ciclo de queda se sustente.

O que segura e o que sofre

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O que segura

  • Pós-fixado e caixa, com a Selic ainda em 14%
  • Bancos, favorecidos por spread alto
  • Exportadoras de petróleo e commodities
  • Crédito privado curto e de emissor sólido

O que sofre

  • Prefixados longos e NTN-B de vencimento distante
  • Small caps e empresas alavancadas
  • Construção, varejo e setores dependentes de crédito
  • Bolsas globais, que perdem atratividade relativa

No radar

Quais eventos definem o trimestre?

Quatro eventos que definem o trimestre

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Interativo

Copom, 16 de setembro

O corte de 0,25 ponto está amplamente precificado. O comunicado importa mais que a decisão, porque define o ritmo até dezembro em um ambiente externo que trabalha na direção oposta.

Decisão do Fed

O mercado atribui cerca de 71% de chance a uma alta de 0,25 ponto, contra 61% antes do dado de preços ao produtor. Uma confirmação empurra a curva americana inteira para cima e reduz o espaço para o Brasil.

PLOA 2027 e trajetória da dívida

O orçamento promete superávit com premissas que o mercado ainda avalia. Cada leilão de NTN-B funciona como um plebiscito diário sobre a confiança fiscal do país.

Oriente Médio e petróleo

O bloqueio de rotas no Golfo Pérsico e no Mar Vermelho sustenta o Brent acima de US$ 100. Enquanto durar, nenhum banco central do mundo consegue declarar vitória sobre a inflação.

Dúvidas frequentes

O que os investidores mais perguntam

Por que o juro americano afeta o Brasil?
O título de 10 anos do Tesouro americano é a referência das captações externas dos países emergentes. Sobre ele, o investidor estrangeiro soma o prêmio que cobra pelo risco de cada país. Quando o treasury sobe, a taxa que o Tesouro Nacional paga lá fora tende a subir, mesmo sem piora na percepção sobre o Brasil.
Se o Copom cortar a Selic, os juros longos caem junto?
Não necessariamente. A soma do treasury com o prêmio de risco forma um piso abaixo do qual o juro local não consegue ir, por mais que o Copom corte. Hoje o DI para janeiro de 2031 está em 14,08%, acima da própria Selic de 14%, sinal de que o mercado não acredita que o ciclo de queda se sustente.
Vale comprar NTN-B longa agora?
Juro real acima de 7,5% em papel longo é atraente no nível, mas exige tolerância à marcação a mercado no caminho até o vencimento. Se o fiscal der sinal concreto de controle da dívida, o prêmio doméstico pode cair e o papel longo indexado vira a melhor posição da carteira. A decisão depende do seu prazo e do seu perfil.

O que isso significa para a sua carteira?

O Brasil vive uma situação incomum. A economia doméstica desacelera e abre espaço para corte de juros, enquanto o mundo aperta as condições financeiras. Os dois movimentos disputam o mesmo pedaço da curva, e o resultado dessa disputa define o preço dos ativos brasileiros nos próximos meses.

Enquanto o juro longo americano subir, cada ponto de queda da Selic vai custar mais caro em prêmio de risco.

Se o Fed confirmar a alta e o petróleo permanecer acima de US$ 100, a parte longa da curva brasileira resiste mesmo com o Copom cortando. O ganho fica concentrado no pós-fixado e na ponta curta.

Se o fiscal entregar sinal concreto de controle da dívida, o prêmio doméstico cai por conta própria e abre espaço para a curva fechar mesmo com o exterior hostil. Aí o papel longo indexado vira a melhor posição da carteira.

Para quem monta carteira agora, vale separar a decisão de prazo da decisão de indexador. Juro real acima de 7,5% em papel longo é atraente no nível, e exige tolerância à marcação a mercado no caminho até o vencimento. A edição Tesouro IPCA+ explica como essa oscilação funciona.

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Roger Gouveia

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Roger Gouveia

Estrategista Macro · Mesa Proprietária · Nvcleopar Investimentos

Fontes
  • Valor Econômico: Alta de juros de longo prazo nos EUA é má notícia para o Brasil, setembro de 2026.
  • U.S. Department of the Treasury: resultados dos leilões de títulos de 30 anos, 2026.
  • Benn Steil / Financial Times: participação de bancos centrais no estoque de treasuries, setembro de 2026.
  • Bureau of Labor Statistics: Índice de Preços ao Produtor, agosto de 2026.
  • Banco Central do Brasil: Relatório Focus e Sistema de Expectativas de Mercado, setembro de 2026.
  • XP Investimentos e B3: curva de juros DI e taxas de NTN-B, semana de 31 de agosto a 4 de setembro de 2026.

Este material é informativo e não constitui oferta, recomendação ou sugestão de investimento. Rentabilidades passadas não são garantia de resultados futuros.