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O Nvcleo do MercadoEdição 06Análise quantitativa

"Sell in May and Go Away"

A tese funciona no Brasil?

26 anos de Ibovespa, mês a mês. Os dados revelam padrões reais, e limites claros, do velho dito do mercado.

Roger Gouveia
Roger GouveiaEstrategista Macro · Mesa Proprietária
Maio de 20268 min de leitura

Em 30 segundos

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    Novembro a abril rende mais: no Ibovespa de 2000 a 2025, esse semestre somou em média +9,5%, contra +3,25% de maio a outubro.
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    Maio é o pior mês: média de -0,72% e alta em só 42% dos anos. Setembro (-0,68%) é o outro mês com média negativa.
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    Sair por seis meses custa caro: julho (+1,58%) e outubro (+2,00%) estão entre os meses mais fortes, e maio a outubro foi positivo em 62% dos anos.
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    Veredito, funciona parcialmente: a regra que os dados sustentam é "reduza maio e setembro, não saia de tudo".

Todo ano em maio o mercado lembra do dito "Sell in May and Go Away" ("venda em maio e vá embora"). A ideia é simples: venda suas ações em maio, fique fora até outubro e volte quando as bolsas voltam a subir. Nasceu no mercado americano, virou clássico global e chegou ao Brasil.

Mas o Brasil é diferente. Aqui, o verão é em dezembro. O ciclo de commodities é outro. O fluxo estrangeiro segue lógica própria. Será que o mesmo calendário vale? Analisamos 26 anos de retornos mensais do Ibovespa para responder com dados.

O que é o "Sell in May"?
A tese, também chamada de Halloween Effect (efeito Halloween), afirma que os retornos do mercado de novembro a abril são sistematicamente maiores que os de maio a outubro. O investidor deveria sair das ações em maio e retornar em novembro. Estudada em mais de 37 países, ela é uma das anomalias sazonais mais documentadas da literatura financeira.

Contexto global

De onde vem a tese e por que ela perdeu força nos EUA?

O dito surgiu na Inglaterra no século XVIII: "Sell in May and go away, and come on back on St. Leger's Day", uma referência a uma corrida de cavalos disputada em setembro. A transposição ao mercado financeiro veio no século XX, com estudos mostrando que 36 de 37 mercados desenvolvidos e emergentes apresentavam retorno maior no semestre novembro-abril entre 1973 e 1998.

Mas a tese perdeu força nas últimas décadas. Nos EUA, um investidor que seguiu a estratégia desde 1976 acumulou US$ 46 mil, contra US$ 294 mil de quem simplesmente ficou comprado (com as ações na carteira) o tempo todo. Em 2024, os índices americanos subiram forte justamente nos meses "fracos".

Dados do Brasil

O que 26 anos de Ibovespa dizem sobre cada mês?

Analisamos os retornos mensais do Ibovespa de janeiro de 2000 a dezembro de 2025, um total de 312 observações mensais. O gráfico abaixo mostra o retorno médio de cada mês nesse período. Barras em laranja indicam o período favorável (nov-abr); barras em azul, os meses positivos do período "Sell in May"; barras em vermelho, os meses negativos do período de risco.

Retorno médio mensal do Ibovespa: média simples por mês, 2000 a 2025 (26 anos, 312 observações) · toque para ampliar

O padrão chama atenção imediata. Dezembro (+3,38%) e novembro (+2,39%) são os dois meses mais fortes do ano. Abril (+1,51%), outubro (+2,00%) e julho (+1,58%) também se destacam. No polo oposto, maio (-0,72%) e setembro (-0,68%) são os únicos com média negativa, e maio registrou ganho em apenas 42% dos anos da amostra.

Maio é o mês com o pior histórico do Ibovespa. Desde 2010, maio foi negativo em 8 dos 16 anos, incluindo quedas expressivas como 2012 (-11,9%), 2018 (-10,9%) e 2016 (-10,1%). A concentração de perdas em maio é consistente com a tese.

42%

dos meses de maio foram positivos

Comparação semestral

Maio a outubro rende mesmo menos que novembro a abril?

Sim. Somando os retornos mensais de cada semestre, o contraste é nítido. O período novembro-abril acumula em média +9,5% por semestre, quase o triplo dos +3,25% acumulados de maio a outubro. Em termos mensais, a diferença é de 1,58% ao mês contra 0,54% ao mês.

Retorno médio semestral e frequência positiva: mai-out vs. nov-abr, Ibovespa 2000-2025 · toque para ampliar

Compare os dois semestres

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Interativo
Métrica↕Mai-Out↕Nov-Abr↕
Retorno médio semestral+3,25%+9,50%
Retorno médio mensal+0,54%/mês+1,58%/mês
Períodos positivos62%80%
Mês mais forteOutubro (+2,00%)Dezembro (+3,38%)
Mês mais fracoMaio (-0,72%)Março (+0,28%)

Análise crítica

O que os dados dizem, e o que não dizem?

O padrão existe, mas é cheio de ruído. O período mai-out foi positivo em 62% dos anos, longe da unanimidade que a tese sugere. Julho (+1,58%) e outubro (+2,00%) são dois dos meses mais fortes do calendário. Sair da Bolsa em maio e perder esses dois meses só faz sentido se você for muito bom em acertar maio e setembro, e ruim no restante.

O principal motor do padrão é o fluxo estrangeiro. Com 80% dos ativos globais geridos no Hemisfério Norte, gestores americanos e europeus reduzem risco nos meses de verão local (jun-ago), o que afeta emergentes como o Brasil. Isso explica a fraqueza de maio e junho, mas não justifica abrir mão de julho, agosto e outubro. É o mesmo capital estrangeiro que, quando entra, ajuda a mover o câmbio, como mostramos em Dólar a R$ 5,00.

Onde a tese acerta e onde falha

Toque em cada item para ver a explicação

Interativo

Quando a tese funciona

  • Maio, especificamente: pior mês do calendário (42% positivo, média de -0,72%).
  • Setembro: média de -0,68% e frequência positiva baixa.
  • Em crises globais (2001, 2002, 2008, 2011), o período mai-out concentrou perdas.
  • Novembro, dezembro e abril são meses comprovadamente fortes no Ibovespa.

Limites da tese

  • Julho (+1,58%) e outubro (+2,00%) são meses fortes: ficar fora é caro.
  • Depois de 2010, mai-out foi positivo em 69% dos anos, uma tendência de melhora.
  • Custos de transação e impostos corroem o ganho da rotação semestral.
  • Janeiro fraco (42% positivo) contradiz o padrão "nov-abr é sempre bom".

O que explica o padrão no Brasil?

  • Fluxo estrangeiro: 80% dos ativos mundiais estão no Hemisfério Norte. Quando gestores americanos e europeus reduzem risco em junho-agosto, o capital sai de emergentes.
  • Commodities: ciclos de produção agrícola no Brasil (colheita em março-maio) criam pressão pontual.
  • Dezembro-janeiro: dinheiro novo, bônus reinvestidos e otimismo de virada de ano impulsionam a Bolsa, um padrão robusto em quase todos os mercados emergentes.

Veredito

Então, o "Sell in May" funciona no Brasil?

Funciona parcialmente. Os 26 anos de dados confirmam que novembro a abril é o semestre mais lucrativo do Ibovespa, com retorno médio de 9,5% contra 3,25% de maio a outubro. O padrão existe e tem causas reais: fluxo estrangeiro, liquidez global e sazonalidade de dinheiro novo.

Mas "Sell in May and Go Away" aplicado literalmente ao Brasil é impreciso. Julho e outubro são dois dos meses mais fortes do ano, e ficar fora deles por seis meses tem custo alto. A tese deveria ser: "Reduza maio e setembro. Não saia de tudo."

Para quem pensa em alocação, o calendário favorece aumentar exposição em outubro-novembro e ter cautela em maio. Não como regra inquebrável, mas como tendência que merece peso na construção do portfólio.

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Roger Gouveia

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Roger Gouveia

Estrategista Macro · Mesa Proprietária · Nvcleopar Investimentos

Fontes
  • Bouman & Jacobsen (2002): "The Halloween Indicator: Sell in May and Go Away", American Economic Review.
  • Bradesco BBI (2021): Análise de sazonalidade do Ibovespa, relatório de estratégia.
  • Castro & Schabek (2014): "'Sell Not Only in May': Seasonal Effects in Emerging and Developed Markets", SSRN.
  • FundCalibre (2025): "Sell in May and Go Away? Does the Old Adage Hold True in 2025?".
  • B3 / Nvcleopar: Retornos mensais do Ibovespa, jan/2000 a dez/2025.

Este material é informativo e não constitui oferta, recomendação ou sugestão de investimento. Rentabilidades passadas não são garantia de resultados futuros.