Em 30 segundos
- 1Novembro a abril rende mais: no Ibovespa de 2000 a 2025, esse semestre somou em média +9,5%, contra +3,25% de maio a outubro.
- 2Maio é o pior mês: média de -0,72% e alta em só 42% dos anos. Setembro (-0,68%) é o outro mês com média negativa.
- 3Sair por seis meses custa caro: julho (+1,58%) e outubro (+2,00%) estão entre os meses mais fortes, e maio a outubro foi positivo em 62% dos anos.
- 4Veredito, funciona parcialmente: a regra que os dados sustentam é "reduza maio e setembro, não saia de tudo".
Todo ano em maio o mercado lembra do dito "Sell in May and Go Away" ("venda em maio e vá embora"). A ideia é simples: venda suas ações em maio, fique fora até outubro e volte quando as bolsas voltam a subir. Nasceu no mercado americano, virou clássico global e chegou ao Brasil.
Mas o Brasil é diferente. Aqui, o verão é em dezembro. O ciclo de commodities é outro. O fluxo estrangeiro segue lógica própria. Será que o mesmo calendário vale? Analisamos 26 anos de retornos mensais do Ibovespa para responder com dados.
O que é o "Sell in May"?
Contexto global
De onde vem a tese e por que ela perdeu força nos EUA?
O dito surgiu na Inglaterra no século XVIII: "Sell in May and go away, and come on back on St. Leger's Day", uma referência a uma corrida de cavalos disputada em setembro. A transposição ao mercado financeiro veio no século XX, com estudos mostrando que 36 de 37 mercados desenvolvidos e emergentes apresentavam retorno maior no semestre novembro-abril entre 1973 e 1998.
Mas a tese perdeu força nas últimas décadas. Nos EUA, um investidor que seguiu a estratégia desde 1976 acumulou US$ 46 mil, contra US$ 294 mil de quem simplesmente ficou comprado (com as ações na carteira) o tempo todo. Em 2024, os índices americanos subiram forte justamente nos meses "fracos".
Dados do Brasil
O que 26 anos de Ibovespa dizem sobre cada mês?
Analisamos os retornos mensais do Ibovespa de janeiro de 2000 a dezembro de 2025, um total de 312 observações mensais. O gráfico abaixo mostra o retorno médio de cada mês nesse período. Barras em laranja indicam o período favorável (nov-abr); barras em azul, os meses positivos do período "Sell in May"; barras em vermelho, os meses negativos do período de risco.
O padrão chama atenção imediata. Dezembro (+3,38%) e novembro (+2,39%) são os dois meses mais fortes do ano. Abril (+1,51%), outubro (+2,00%) e julho (+1,58%) também se destacam. No polo oposto, maio (-0,72%) e setembro (-0,68%) são os únicos com média negativa, e maio registrou ganho em apenas 42% dos anos da amostra.
Maio é o mês com o pior histórico do Ibovespa. Desde 2010, maio foi negativo em 8 dos 16 anos, incluindo quedas expressivas como 2012 (-11,9%), 2018 (-10,9%) e 2016 (-10,1%). A concentração de perdas em maio é consistente com a tese.
dos meses de maio foram positivos
Comparação semestral
Maio a outubro rende mesmo menos que novembro a abril?
Sim. Somando os retornos mensais de cada semestre, o contraste é nítido. O período novembro-abril acumula em média +9,5% por semestre, quase o triplo dos +3,25% acumulados de maio a outubro. Em termos mensais, a diferença é de 1,58% ao mês contra 0,54% ao mês.
Compare os dois semestres
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| Métrica↕ | Mai-Out↕ | Nov-Abr↕ |
|---|---|---|
| Retorno médio semestral | +3,25% | +9,50% |
| Retorno médio mensal | +0,54%/mês | +1,58%/mês |
| Períodos positivos | 62% | 80% |
| Mês mais forte | Outubro (+2,00%) | Dezembro (+3,38%) |
| Mês mais fraco | Maio (-0,72%) | Março (+0,28%) |
Análise crítica
O que os dados dizem, e o que não dizem?
O padrão existe, mas é cheio de ruído. O período mai-out foi positivo em 62% dos anos, longe da unanimidade que a tese sugere. Julho (+1,58%) e outubro (+2,00%) são dois dos meses mais fortes do calendário. Sair da Bolsa em maio e perder esses dois meses só faz sentido se você for muito bom em acertar maio e setembro, e ruim no restante.
O principal motor do padrão é o fluxo estrangeiro. Com 80% dos ativos globais geridos no Hemisfério Norte, gestores americanos e europeus reduzem risco nos meses de verão local (jun-ago), o que afeta emergentes como o Brasil. Isso explica a fraqueza de maio e junho, mas não justifica abrir mão de julho, agosto e outubro. É o mesmo capital estrangeiro que, quando entra, ajuda a mover o câmbio, como mostramos em Dólar a R$ 5,00.
Onde a tese acerta e onde falha
Toque em cada item para ver a explicação
Quando a tese funciona
- Maio, especificamente: pior mês do calendário (42% positivo, média de -0,72%).
- Setembro: média de -0,68% e frequência positiva baixa.
- Em crises globais (2001, 2002, 2008, 2011), o período mai-out concentrou perdas.
- Novembro, dezembro e abril são meses comprovadamente fortes no Ibovespa.
Limites da tese
- Julho (+1,58%) e outubro (+2,00%) são meses fortes: ficar fora é caro.
- Depois de 2010, mai-out foi positivo em 69% dos anos, uma tendência de melhora.
- Custos de transação e impostos corroem o ganho da rotação semestral.
- Janeiro fraco (42% positivo) contradiz o padrão "nov-abr é sempre bom".
O que explica o padrão no Brasil?
- Fluxo estrangeiro: 80% dos ativos mundiais estão no Hemisfério Norte. Quando gestores americanos e europeus reduzem risco em junho-agosto, o capital sai de emergentes.
- Commodities: ciclos de produção agrícola no Brasil (colheita em março-maio) criam pressão pontual.
- Dezembro-janeiro: dinheiro novo, bônus reinvestidos e otimismo de virada de ano impulsionam a Bolsa, um padrão robusto em quase todos os mercados emergentes.
Veredito
Então, o "Sell in May" funciona no Brasil?
Funciona parcialmente. Os 26 anos de dados confirmam que novembro a abril é o semestre mais lucrativo do Ibovespa, com retorno médio de 9,5% contra 3,25% de maio a outubro. O padrão existe e tem causas reais: fluxo estrangeiro, liquidez global e sazonalidade de dinheiro novo.
Mas "Sell in May and Go Away" aplicado literalmente ao Brasil é impreciso. Julho e outubro são dois dos meses mais fortes do ano, e ficar fora deles por seis meses tem custo alto. A tese deveria ser: "Reduza maio e setembro. Não saia de tudo."
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Roger Gouveia
Estrategista Macro · Mesa Proprietária · Nvcleopar Investimentos
Fontes
- Bouman & Jacobsen (2002): "The Halloween Indicator: Sell in May and Go Away", American Economic Review.
- Bradesco BBI (2021): Análise de sazonalidade do Ibovespa, relatório de estratégia.
- Castro & Schabek (2014): "'Sell Not Only in May': Seasonal Effects in Emerging and Developed Markets", SSRN.
- FundCalibre (2025): "Sell in May and Go Away? Does the Old Adage Hold True in 2025?".
- B3 / Nvcleopar: Retornos mensais do Ibovespa, jan/2000 a dez/2025.
Este material é informativo e não constitui oferta, recomendação ou sugestão de investimento. Rentabilidades passadas não são garantia de resultados futuros.

