Em 30 segundos
- 1Maior pedido da história: a Casas Bahia entrou com recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas, seguida pela Marabraz e, em junho, pelo Grupo Toky.
- 2Movimento amplo: 986 varejistas estavam em RJ ao fim do 1º semestre de 2026, alta de 20,4% em 12 meses.
- 3A raiz é o juro: quem se endividou com a Selic a 2% enfrenta juro que chegou a 15% em junho de 2025 e ainda está em 14%.
- 4Teste no Natal: se o crédito de fornecedor apertar, o varejo pode chegar à Black Friday e ao Natal com prateleiras vazias.
No domingo (16/08), o Grupo Casas Bahia protocolou o maior pedido de recuperação judicial de sua história. São R$ 17,3 bilhões em dívidas, e a companhia descreve o momento como a pior crise financeira desde a fundação, na década de 1950. No mesmo dia, as Lojas Marabraz seguiram o caminho. Em junho, foi a vez do Grupo Toky, dono de Mobly e Tok&Stok.
Os casos não são isolados. Eles são o rosto visível de um movimento que se espalha pelo comércio brasileiro desde que o custo do dinheiro disparou. Nesta edição, você vai ver por que o varejo virou o setor da vez nas recuperações judiciais (RJs), quem sente mais o aperto e o que está em jogo até o fim do ano.
varejistas em recuperação judicial ao fim do primeiro semestre de 2026, alta de 20,4% em 12 meses (Monitor RGF-BIZDOC)
Casas Bahia, Marabraz e Toky são apenas os nomes mais conhecidos de uma lista que cresce mês a mês.
A raiz
Por que o juro alto derrubou o varejo?
A história começa na pandemia. Com a Selic a 2% ao ano, muitas varejistas se endividaram para investir em digitalização, logística e expansão. O dinheiro estava barato e o futuro parecia promissor. A própria Casas Bahia acelerou sua transformação nesse período.
Depois veio a virada. O Banco Central subiu a Selic até 15% ao ano em junho de 2025, para conter a inflação. Em 2026, iniciou cortes graduais, e a taxa chegou a 14% em agosto, ainda em patamar restritivo. Para quem se alavancou com juro de 2%, a conta ficou impagável. O consultor Alberto Serrentino, da Varese Retail, resume: as empresas remam agora para pagar o passado, não para construir o futuro.
Não é só o varejo
O Brasil fechou junho com 6.341 empresas em recuperação judicial, recorde da série. Curiosamente, o varejo tem a menor densidade de casos entre os grandes setores: 0,16 caso por mil empresas ativas, metade da média nacional. O que chama atenção é o tamanho dos nomes que caíram, não a quantidade.
Para entender por que o juro global e o doméstico ficaram altos por tanto tempo, veja a edição Juros globais em alta.
Os casos
O que Casas Bahia, Toky e Marabraz têm em comum?
As três varejistas que pediram RJ vendem produtos de tíquete alto e dependem de crédito parcelado. Todas viram o serviço da dívida engolir a geração de caixa. O tamanho, no entanto, difere bastante.
Três histórias, o mesmo enredo
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Casas Bahia
Prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre, oitavo balanço seguido no vermelho. Patrimônio líquido negativo em R$ 8,1 bilhões. A rede fechou 298 lojas (29% da base) e demitiu cerca de 3 mil funcionários. Na bolsa, a ação (BHIA3) despencou até 36% no primeiro pregão e acumula queda de mais de 80% no ano.
Grupo Toky
O pedido foi deferido em junho. A confiança dos fornecedores caiu, o estoque rompeu e os cancelamentos de pedidos dispararam. A receita líquida do segundo trimestre despencou 37,3%, para R$ 207,1 milhões, com prejuízo de R$ 232,7 milhões.
Lojas Marabraz
Pediu recuperação judicial no mesmo dia que a Casas Bahia, com R$ 140,2 milhões em créditos sujeitos à RJ.
de receita do Grupo Toky no segundo trimestre, após a recuperação judicial
O efeito dominó
O que acontece quando o fornecedor fecha a torneira?
Aqui está o ponto que conecta todos os casos. O crédito de fornecedor é o que financia o giro do estoque. Quando o fornecedor começa a exigir garantias ou vender apenas à vista, a dificuldade vira ruptura de prateleira quase da noite para o dia. Sem mercadoria, não há venda. Sem venda, não há caixa. E a recuperação trava.
Ana Paula Tozzi, presidente da AGR Consultores, descreve a mecânica: a restrição de crédito pelo fornecedor transforma o aperto financeiro em perda de venda muito rapidamente. Foi exatamente isso que abateu o Grupo Toky logo após a RJ.
Os riscos até o fim do ano
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O risco do calendário
O estoque de Black Friday e Natal, que concentra a maior fatia das vendas do ano, está sendo negociado agora. É a confiança do fornecedor que financia esse giro. Se novos pedidos de RJ estreitarem ainda mais o crédito comercial, o varejo corre o risco de chegar ao quarto trimestre com prateleiras desabastecidas.
A leitura do mercado
Itaú BBA e XP colocaram as ações da Casas Bahia sob revisão e encerraram a cobertura ativa, argumentando que o quadro macro não sustenta uma recuperação rápida. O Safra recomenda venda. A XP destacou o patrimônio líquido negativo de R$ 8,1 bilhões e a abstenção de opinião dos auditores sobre o balanço. O Citi lembra que a presença digital do grupo é modesta, cerca de 2% das vendas de terceiros no país.
O tabuleiro
Quem ganha e quem perde no varejo?
Quando uma rede fecha centenas de lojas, essa venda não some. Ela migra para os concorrentes. Segundo Serrentino, o Magalu, que tem muita sobreposição de área com a Casas Bahia, deve capturar boa parte. Nem todo segmento sofre igual, no entanto.
Quem resiste e quem sofre
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Mais resilientes
Varejo alimentar; farmácias e drogarias; redes com balanço menos alavancado; empresas fortes no digital (ex.: Mercado Livre).
Mais expostos
Eletroeletrônicos (tíquete alto); móveis e decoração; redes muito dependentes de crédito parcelado; empresas alavancadas na era da Selic a 2%.
Dúvidas frequentes
Recuperação judicial significa que a empresa vai fechar?
Por que os fornecedores são tão importantes nessa crise?
Todo o varejo está igualmente exposto?
O que isso significa para você?
A recuperação judicial deixou de ser sinônimo de fim de linha e virou ferramenta padrão de renegociação no varejo. Como resume o advogado José Carlos de Jesus Gonçalves, o Brasil de hoje é incompatível com estruturas de capital muito alavancadas no comércio.
Para quem investe, o setor de consumo cíclico segue sob pressão enquanto a Selic não recuar de forma consistente. Balanço e nível de alavancagem viram o primeiro filtro, não o último.
O quarto trimestre será o teste. Se o crédito de fornecedor continuar apertando, a temporada de Black Friday e Natal pode revelar quem tem fôlego de caixa e quem apenas adiou o inevitável.
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Roger Gouveia
Estrategista Macro · Mesa Proprietária · Nvcleopar Investimentos
Fontes
- Valor Econômico: “Crise arrasta varejo para recuperação judicial”, 18/08/2026.
- Monitor RGF-BIZDOC: empresas em recuperação judicial, 1º semestre de 2026.
- Banco Central do Brasil: Copom, decisão de 05/08/2026 (Selic a 14% a.a.).
- Petições iniciais e balanços do 2º trimestre de 2026 de Grupo Casas Bahia, Grupo Toky e Lojas Marabraz.
- Relatórios de Itaú BBA, XP, Safra e Citi; InfoMoney, Brazil Journal e Serasa Experian.
Este material é informativo e não constitui oferta, recomendação ou sugestão de investimento. A menção a empresas e ações não é recomendação de compra ou venda. Rentabilidades passadas não são garantia de resultados futuros.

