Em 30 segundos
- 1Pode ser histórico: a NOAA vê cerca de 62% de chance de um El Niño "muito forte" (índice ONI de 2°C ou mais) entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
- 2Soja resiste: mesmo no cenário severo, a perda de produtividade no Brasil fica perto de 5%, com o risco concentrado no MATOPIBA. O Rio Grande do Sul tende a ganhar.
- 3Milho é o elo fraco: em 2015/16, a produtividade caiu 23% em relação ao potencial. A safrinha 2026/27 é o principal ponto de atenção.
- 4Açúcar tem dois riscos: o El Niño pode afetar Brasil, Índia e Tailândia ao mesmo tempo, mas o cenário-base de curto prazo ainda é de preço pressionado.
O cenário
O que a NOAA projeta para o El Niño de 2026?
A NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, a agência americana de oceanos e clima) prevê chance relevante de o índice oceânico ONI (Oceanic Niño Index) superar 2°C entre o fim do ano e janeiro de 2027. Esse nível só foi visto duas vezes em três décadas.
O mercado já começou a precificar esse cenário. Mas o histórico mostra que a relação entre El Niño e quebra de safra é menos direta do que parece. Soja e arroz seguem resilientes na maioria dos episódios. Milho e açúcar concentram os maiores riscos. E o Rio Grande do Sul pode até sair ganhando.
O que a NOAA projeta para o fim de 2026
A previsão de junho de 2026 dá cerca de 62% de chance de um El Niño "muito forte" (índice ONI igual ou acima de 2°C) entre novembro e janeiro. O único precedente nesse nível foi o recorde de +2,6°C em novembro de 2015.
Dois episódios são a base dos cenários deste relatório: 2015/16 funciona como referência para o caso "super forte" e 2023/24, com pico de +2°C, para o caso "forte". As comparações usam a produtividade esperada em cada período, e não a perda realizada, porque mudanças na área plantada distorcem a leitura.
Contexto
Com que frequência o El Niño é extremo?
Eventos extremos são exceção, não a regra. Desde 1995, o Brasil viveu oito episódios de El Niño, em média um a cada 3,7 anos. Apenas dois chegaram à faixa "super forte", com índice ONI acima de 2°C: 1997/98 e 2015/16, este último com o recorde de +2,6°C.
Cinco dos oito episódios ficaram entre fraco e moderado. O de 2023/24 fechou em +2°C, no limiar da faixa "forte". A intensidade prevista para 2026 aproxima o evento das duas referências mais fortes da série.
Soja
Soja: o Brasil aguenta, mas o Nordeste sofre
A soja é a cultura mais resiliente ao El Niño. Mesmo em um cenário severo, a perda de produtividade no agregado do Brasil fica perto de 5%. O risco se concentra no MATOPIBA (região agrícola que reúne Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde 2015/16 levou a quedas entre 37% e 65%.
O Sul vive o cenário oposto. O Rio Grande do Sul ganhou entre 5% e 10% de produtividade nos episódios mais fortes, porque o El Niño costuma trazer mais chuva para a região.
Uma queda de 5% na produtividade em 2026/27 reduziria a produção brasileira entre 7 e 9 milhões de toneladas. O ajuste viria por menores exportações e estoques mais baixos. Uma safra forte nos EUA absorveria parte do choque; uma safra fraca apertaria o balanço global e exigiria menores importações chinesas.
perda máxima de produtividade da soja no Brasil, no cenário "muito forte"
Milho
Milho: a cultura mais vulnerável ao fenômeno
O milho reage de forma muito mais intensa do que a soja. No episódio "super forte" de 2015/16, a produtividade no Brasil caiu 23% em relação ao potencial, o que tirou cerca de 20% da produção total. As perdas foram generalizadas, com Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Bahia e Piauí acima de 30% de queda.
O ponto fraco é a safrinha, a segunda safra, que depende de chuva no outono e no inverno. Atrasos no plantio causados pelo El Niño tendem a aparecer só no fim de 2026, quando o efeito sobre a safrinha 2026/27 ficará mais claro. Em 2023/24, as perdas se concentraram em Mato Grosso do Sul (-35%), enquanto o resto do Centro-Oeste mostrou mais resistência.
Maior assimetria de risco
O milho tem um colchão de oferta global mais apertado do que a soja. Se o cenário "muito forte" se confirmar, o ambiente de preços pode ficar mais construtivo. Mesmo assim, o espaço para alta deve ser limitado por um carryout (estoque de passagem de uma safra para a outra) global mais confortável, projetado para 2026/27.
Algodão
Algodão: correlação fraca, risco concentrado na Bahia
O algodão tem a relação mais inconsistente com o El Niño entre as culturas deste relatório. Em 2015/16, a produtividade caiu 16% no Brasil, mas em 2023/24 o impacto foi praticamente zero. A diferença vem quase toda da Bahia, que perdeu 33% em 2015/16.
Mato Grosso, o maior produtor, manteve perdas pequenas em todos os episódios, entre 1% e 14%. Por isso, no cenário "forte" deste relatório, a estimativa para o Brasil é de -5%, um pouco mais conservadora do que o 0% observado em 2023/24.
Irrigação como colchão
A SLC mantém irrigação concentrada nas áreas de algodão, o que ajuda a conter a volatilidade da produtividade mesmo em anos de El Niño mais forte. Do lado da demanda, a China continua sendo a variável-chave: qualquer surpresa de alta tende a ser compartilhada entre Brasil e EUA.
Açúcar
Açúcar: a commodity mais sensível, com preço de partida pressionado
Entre as commodities agrícolas, o açúcar concentra dois canais de risco ao mesmo tempo. No Brasil, o El Niño pode reduzir a produtividade e o ATR (Açúcar Total Recuperável) da cana no Centro-Sul. Na Ásia, o fenômeno costuma enfraquecer as monções na Índia e provocar seca na Tailândia, reduzindo o excedente exportável dos dois países.
Brasil, Índia e Tailândia respondem pela maior parte da oferta global de açúcar. Quando o El Niño afeta os três países ao mesmo tempo, o mercado perde seus principais colchões de oferta. Foi esse mecanismo que sustentou os preços do açúcar em 2016 e em 2024.
O ponto de partida para 2026/27 ainda é de preço pressionado: a moagem do Centro-Sul pode passar de 640 milhões de toneladas, e as chuvas na Índia seguem favoráveis até agora. Um El Niño muito forte adicionaria opcionalidade de alta, mas não muda esse cenário-base de curto prazo.
Hedge: São Martinho x Jalles
A São Martinho tem cerca de 40% do volume de 2026/27 protegido com hedge a USD 16,1 c/lb. Isso deixa mais espaço para capturar uma eventual alta de preços, caso a Ásia seja afetada. A Jalles já travou perto de 100% do volume a um preço médio próximo de R$ 2.400 por tonelada, uma estratégia mais eficiente diante do mercado atual, mas com menos espaço de captura se o açúcar subir.
Outros grãos
Trigo, arroz e feijão: sinais mistos
O trigo está concentrado no Paraná e no Rio Grande do Sul, exposto a excesso de chuva e geadas. A resposta histórica é inconsistente: variou de +27% em 2015/16 a -25% em 2023/24.
O arroz é o mais estável dos três. A produção irrigada no Rio Grande do Sul limita os desvios de produtividade a uma faixa entre -1% e -6% em todos os episódios analisados.
O feijão teve o maior desvio em 2015/16, com queda de 17%, mas o impacto foi bem menor nos episódios seguintes. O sinal é fraco e pouco consistente ao longo dos ciclos.
Resumo
Quanto o El Niño pode reduzir cada safra?
A tabela reúne o ponto médio de impacto na produtividade nacional, em relação ao potencial, para cada cultura e cada faixa de intensidade do El Niño, segundo a classificação da NOAA.
Impacto na produtividade nacional, por intensidade
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| Cultura↕ | Fraco↕ | Moderado↕ | Forte↕ | Muito forte↕ |
|---|---|---|---|---|
| Soja | -0,8% | -2,3% | -4,0% | -5,0% |
| Milho | -1,5% | -4,0% | -7,5% | -10,0% |
| Algodão | -0,5% | -2,0% | -4,0% | -7,5% |
| Cana-de-açúcar | -0,5% | -2,0% | -4,0% | -8,5% |
| Trigo | -0,5% | -5,0% | -10,0% | -15,0% |
| Arroz | -0,5% | -1,0% | -3,0% | -6,0% |
| Feijão | -0,5% | -2,0% | -4,0% | -8,0% |
Fonte: NOAA CPC, Conab, UNICA e XP Research. Valores no ponto médio das faixas de cada classificação de intensidade do ONI.
Quem ganha e quem perde
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Beneficiados
- 3Tentos (TTEN3): mais da metade da receita vem do RS, região que tende a ganhar chuva.
- Rio Grande do Sul: soja, milho e trigo com potencial de ganho de produtividade.
- Jalles (JALL3): o hedge quase total protege o resultado de curto prazo.
- Arroz irrigado: sensibilidade histórica baixa ao fenômeno.
Vulneráveis
- SLC (SLCE3) e BrasilAgro (AGRO3): exposição ao norte do Centro-Oeste e ao MATOPIBA.
- Milho safrinha: maior risco de quebra entre todas as culturas analisadas.
- MATOPIBA: maior concentração histórica de perdas em soja e milho.
- São Martinho (SMTO3): a produtividade pode cair, com a produção já travada para o ano.
Para você
O que isso significa para o investidor?
O El Niño 2026/27 tem boa chance de entrar para a história como um dos mais fortes já registrados. Isso, por si só, já justifica a atenção do mercado ao tema.
Mas força do índice oceânico não é sinônimo de quebra de safra generalizada. O impacto real depende muito mais de onde a chuva falta, ou sobra, do que da intensidade do fenômeno. Dois cenários ajudam a organizar a leitura:
- Se o evento seguir o padrão de 2015/16, milho e açúcar sentem mais, a soja resiste no agregado e o Rio Grande do Sul se beneficia.
- Se ficar mais perto de 2023/24, o impacto fica concentrado em bolsões regionais, como Mato Grosso do Sul no milho, sem mudar o balanço nacional.
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Roger Gouveia
Estrategista Macro · Mesa Proprietária · Nvcleopar Investimentos
Fontes
- XP Research: "El Niño: tema quente, mas longe de garantir perdas de produtividade", 15 de junho de 2026.
- NOAA CPC: probabilidades de intensidade do ENSO, junho de 2026.
- Conab, UNICA e Czarnikow: dados históricos de produtividade e balanço de açúcar.
Este material é informativo e não constitui oferta, recomendação ou sugestão de investimento. Rentabilidades passadas não são garantia de resultados futuros.

