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O calor do Pacífico

Um mapa dos impactos nas maiores culturas agrícolas brasileiras com o El Niño

A NOAA projeta um dos eventos mais fortes da história recente. O mercado já reage, mas o histórico mostra que quebra de safra generalizada não é a regra.

Roger Gouveia
Roger GouveiaEstrategista Macro · Mesa Proprietária
Junho de 20268 min de leitura

Em 30 segundos

  • 1
    Pode ser histórico: a NOAA vê cerca de 62% de chance de um El Niño "muito forte" (índice ONI de 2°C ou mais) entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
  • 2
    Soja resiste: mesmo no cenário severo, a perda de produtividade no Brasil fica perto de 5%, com o risco concentrado no MATOPIBA. O Rio Grande do Sul tende a ganhar.
  • 3
    Milho é o elo fraco: em 2015/16, a produtividade caiu 23% em relação ao potencial. A safrinha 2026/27 é o principal ponto de atenção.
  • 4
    Açúcar tem dois riscos: o El Niño pode afetar Brasil, Índia e Tailândia ao mesmo tempo, mas o cenário-base de curto prazo ainda é de preço pressionado.

O cenário

O que a NOAA projeta para o El Niño de 2026?

O El Niño voltou ao radar do agro. A NOAA projeta um dos episódios mais fortes desde que o monitoramento começou.

A NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, a agência americana de oceanos e clima) prevê chance relevante de o índice oceânico ONI (Oceanic Niño Index) superar 2°C entre o fim do ano e janeiro de 2027. Esse nível só foi visto duas vezes em três décadas.

O mercado já começou a precificar esse cenário. Mas o histórico mostra que a relação entre El Niño e quebra de safra é menos direta do que parece. Soja e arroz seguem resilientes na maioria dos episódios. Milho e açúcar concentram os maiores riscos. E o Rio Grande do Sul pode até sair ganhando.

O que a NOAA projeta para o fim de 2026

A previsão de junho de 2026 dá cerca de 62% de chance de um El Niño "muito forte" (índice ONI igual ou acima de 2°C) entre novembro e janeiro. O único precedente nesse nível foi o recorde de +2,6°C em novembro de 2015.

Dois episódios são a base dos cenários deste relatório: 2015/16 funciona como referência para o caso "super forte" e 2023/24, com pico de +2°C, para o caso "forte". As comparações usam a produtividade esperada em cada período, e não a perda realizada, porque mudanças na área plantada distorcem a leitura.

Contexto

Com que frequência o El Niño é extremo?

Eventos extremos são exceção, não a regra. Desde 1995, o Brasil viveu oito episódios de El Niño, em média um a cada 3,7 anos. Apenas dois chegaram à faixa "super forte", com índice ONI acima de 2°C: 1997/98 e 2015/16, este último com o recorde de +2,6°C.

Cinco dos oito episódios ficaram entre fraco e moderado. O de 2023/24 fechou em +2°C, no limiar da faixa "forte". A intensidade prevista para 2026 aproxima o evento das duas referências mais fortes da série.

Pico do índice ONI por episódio de El Niño, em °C, de 1997/98 a 2023/24. Barras em âmbar: episódios com ONI igual ou acima de 2,0°C · Fonte: NOAA CPC e XP Research · toque para ampliar

Soja

Soja: o Brasil aguenta, mas o Nordeste sofre

A soja é a cultura mais resiliente ao El Niño. Mesmo em um cenário severo, a perda de produtividade no agregado do Brasil fica perto de 5%. O risco se concentra no MATOPIBA (região agrícola que reúne Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde 2015/16 levou a quedas entre 37% e 65%.

O Sul vive o cenário oposto. O Rio Grande do Sul ganhou entre 5% e 10% de produtividade nos episódios mais fortes, porque o El Niño costuma trazer mais chuva para a região.

Uma queda de 5% na produtividade em 2026/27 reduziria a produção brasileira entre 7 e 9 milhões de toneladas. O ajuste viria por menores exportações e estoques mais baixos. Uma safra forte nos EUA absorveria parte do choque; uma safra fraca apertaria o balanço global e exigiria menores importações chinesas.

-5%

perda máxima de produtividade da soja no Brasil, no cenário "muito forte"

Milho

Milho: a cultura mais vulnerável ao fenômeno

O milho reage de forma muito mais intensa do que a soja. No episódio "super forte" de 2015/16, a produtividade no Brasil caiu 23% em relação ao potencial, o que tirou cerca de 20% da produção total. As perdas foram generalizadas, com Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Bahia e Piauí acima de 30% de queda.

O ponto fraco é a safrinha, a segunda safra, que depende de chuva no outono e no inverno. Atrasos no plantio causados pelo El Niño tendem a aparecer só no fim de 2026, quando o efeito sobre a safrinha 2026/27 ficará mais claro. Em 2023/24, as perdas se concentraram em Mato Grosso do Sul (-35%), enquanto o resto do Centro-Oeste mostrou mais resistência.

Maior assimetria de risco

O milho tem um colchão de oferta global mais apertado do que a soja. Se o cenário "muito forte" se confirmar, o ambiente de preços pode ficar mais construtivo. Mesmo assim, o espaço para alta deve ser limitado por um carryout (estoque de passagem de uma safra para a outra) global mais confortável, projetado para 2026/27.

Algodão

Algodão: correlação fraca, risco concentrado na Bahia

O algodão tem a relação mais inconsistente com o El Niño entre as culturas deste relatório. Em 2015/16, a produtividade caiu 16% no Brasil, mas em 2023/24 o impacto foi praticamente zero. A diferença vem quase toda da Bahia, que perdeu 33% em 2015/16.

Mato Grosso, o maior produtor, manteve perdas pequenas em todos os episódios, entre 1% e 14%. Por isso, no cenário "forte" deste relatório, a estimativa para o Brasil é de -5%, um pouco mais conservadora do que o 0% observado em 2023/24.

Irrigação como colchão

A SLC mantém irrigação concentrada nas áreas de algodão, o que ajuda a conter a volatilidade da produtividade mesmo em anos de El Niño mais forte. Do lado da demanda, a China continua sendo a variável-chave: qualquer surpresa de alta tende a ser compartilhada entre Brasil e EUA.

Açúcar

Açúcar: a commodity mais sensível, com preço de partida pressionado

Entre as commodities agrícolas, o açúcar concentra dois canais de risco ao mesmo tempo. No Brasil, o El Niño pode reduzir a produtividade e o ATR (Açúcar Total Recuperável) da cana no Centro-Sul. Na Ásia, o fenômeno costuma enfraquecer as monções na Índia e provocar seca na Tailândia, reduzindo o excedente exportável dos dois países.

Brasil, Índia e Tailândia respondem pela maior parte da oferta global de açúcar. Quando o El Niño afeta os três países ao mesmo tempo, o mercado perde seus principais colchões de oferta. Foi esse mecanismo que sustentou os preços do açúcar em 2016 e em 2024.

O ponto de partida para 2026/27 ainda é de preço pressionado: a moagem do Centro-Sul pode passar de 640 milhões de toneladas, e as chuvas na Índia seguem favoráveis até agora. Um El Niño muito forte adicionaria opcionalidade de alta, mas não muda esse cenário-base de curto prazo.

Hedge: São Martinho x Jalles

A São Martinho tem cerca de 40% do volume de 2026/27 protegido com hedge a USD 16,1 c/lb. Isso deixa mais espaço para capturar uma eventual alta de preços, caso a Ásia seja afetada. A Jalles já travou perto de 100% do volume a um preço médio próximo de R$ 2.400 por tonelada, uma estratégia mais eficiente diante do mercado atual, mas com menos espaço de captura se o açúcar subir.

Outros grãos

Trigo, arroz e feijão: sinais mistos

O trigo está concentrado no Paraná e no Rio Grande do Sul, exposto a excesso de chuva e geadas. A resposta histórica é inconsistente: variou de +27% em 2015/16 a -25% em 2023/24.

O arroz é o mais estável dos três. A produção irrigada no Rio Grande do Sul limita os desvios de produtividade a uma faixa entre -1% e -6% em todos os episódios analisados.

O feijão teve o maior desvio em 2015/16, com queda de 17%, mas o impacto foi bem menor nos episódios seguintes. O sinal é fraco e pouco consistente ao longo dos ciclos.

Resumo

Quanto o El Niño pode reduzir cada safra?

A tabela reúne o ponto médio de impacto na produtividade nacional, em relação ao potencial, para cada cultura e cada faixa de intensidade do El Niño, segundo a classificação da NOAA.

Impacto na produtividade nacional, por intensidade

Toque numa linha para destacar, ou no cabeçalho para ordenar

Interativo
Cultura↕Fraco↕Moderado↕Forte↕Muito forte↕
Soja-0,8%-2,3%-4,0%-5,0%
Milho-1,5%-4,0%-7,5%-10,0%
Algodão-0,5%-2,0%-4,0%-7,5%
Cana-de-açúcar-0,5%-2,0%-4,0%-8,5%
Trigo-0,5%-5,0%-10,0%-15,0%
Arroz-0,5%-1,0%-3,0%-6,0%
Feijão-0,5%-2,0%-4,0%-8,0%

Fonte: NOAA CPC, Conab, UNICA e XP Research. Valores no ponto médio das faixas de cada classificação de intensidade do ONI.

Quem ganha e quem perde

Toque em cada item para ver a explicação

Interativo

Beneficiados

  • 3Tentos (TTEN3): mais da metade da receita vem do RS, região que tende a ganhar chuva.
  • Rio Grande do Sul: soja, milho e trigo com potencial de ganho de produtividade.
  • Jalles (JALL3): o hedge quase total protege o resultado de curto prazo.
  • Arroz irrigado: sensibilidade histórica baixa ao fenômeno.

Vulneráveis

  • SLC (SLCE3) e BrasilAgro (AGRO3): exposição ao norte do Centro-Oeste e ao MATOPIBA.
  • Milho safrinha: maior risco de quebra entre todas as culturas analisadas.
  • MATOPIBA: maior concentração histórica de perdas em soja e milho.
  • São Martinho (SMTO3): a produtividade pode cair, com a produção já travada para o ano.

Para você

O que isso significa para o investidor?

O El Niño 2026/27 tem boa chance de entrar para a história como um dos mais fortes já registrados. Isso, por si só, já justifica a atenção do mercado ao tema.

Mas força do índice oceânico não é sinônimo de quebra de safra generalizada. O impacto real depende muito mais de onde a chuva falta, ou sobra, do que da intensidade do fenômeno. Dois cenários ajudam a organizar a leitura:

  • Se o evento seguir o padrão de 2015/16, milho e açúcar sentem mais, a soja resiste no agregado e o Rio Grande do Sul se beneficia.
  • Se ficar mais perto de 2023/24, o impacto fica concentrado em bolsões regionais, como Mato Grosso do Sul no milho, sem mudar o balanço nacional.

O peso das commodities no humor do investidor estrangeiro com o Brasil é tema da edição O novo ouro.

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Roger Gouveia

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Roger Gouveia

Estrategista Macro · Mesa Proprietária · Nvcleopar Investimentos

Fontes
  • XP Research: "El Niño: tema quente, mas longe de garantir perdas de produtividade", 15 de junho de 2026.
  • NOAA CPC: probabilidades de intensidade do ENSO, junho de 2026.
  • Conab, UNICA e Czarnikow: dados históricos de produtividade e balanço de açúcar.

Este material é informativo e não constitui oferta, recomendação ou sugestão de investimento. Rentabilidades passadas não são garantia de resultados futuros.