O Nvcleo do MercadoEdição 03Análise especial

IA e o mercado de trabalho

O que mudar, o que proteger e o que fazer agora

Quem é vulnerável, quem se beneficia e quais políticas importam

Roger Gouveia
Roger GouveiaEstrategista Macro · Mesa Proprietária
Abril de 20268 min de leitura

Em 30 segundos

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    Exposição ampla: 29,8 milhões de brasileiros, 30% da população ocupada, já estão expostos à IA generativa, segundo o FGV IBRE.
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    Como complemento: a IA aumentou a produtividade de atendentes de call center em 14% em média, e em 34% entre os iniciantes.
  • 3
    Como substituto: nos EUA, as vagas das ocupações mais expostas caíram 6% no primeiro ano após o ChatGPT e 18% no terceiro, segundo o Banco Mundial.
  • 4
    Saldo positivo, mas desigual: até 2030, 170 milhões de vagas devem ser criadas e 92 milhões destruídas, e 39% das habilidades do trabalhador médio ficarão obsoletas (Fórum Econômico Mundial).

O tema

O que é IA generativa e quantos brasileiros estão expostos?

A inteligência artificial está transformando o mercado de trabalho em uma velocidade sem precedentes. Mais rápido que o computador pessoal. Mais rápido que a internet.

O debate comum é sobre emprego ou desemprego. Mas isso é uma leitura superficial. O que está em curso é uma reconfiguração profunda de tarefas, competências e poder de barganha. O impacto não é uniforme: varia por setor, escolaridade, região e gênero. Os dados já mostram isso. E as decisões de hoje definem quem captura valor e quem é deslocado.

O que é IA generativa?
IA generativa são sistemas como ChatGPT, Gemini e Copilot, baseados em grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês), capazes de gerar texto, código, imagens e análises com alta qualidade. Diferente da automação industrial tradicional, essa tecnologia atinge diretamente tarefas cognitivas (análise, classificação, redação e tomada de decisão), historicamente reservadas a trabalhadores qualificados.
29,8 milhões

Trabalhadores brasileiros expostos à IA generativa, 30% da população ocupada (FGV IBRE, 2025)

Em 2012, esse número era de 23,2 milhões (27%). Antes de tirar conclusões apressadas, é preciso entender que a IA pode agir de dois modos sobre o trabalho.

Cenário 1

Quando a IA ajuda: produtividade e novos papéis

Nesse cenário, a IA amplifica o que o trabalhador já faz. Ela automatiza as partes mais repetitivas das tarefas e libera o profissional para funções de maior julgamento, criatividade e interação humana.

Um estudo de Brynjolfsson et al. (2023) com atendentes de call center mostrou que o acesso a um assistente de IA aumentou a produtividade em 14% em média, com impacto de 34% para trabalhadores iniciantes. A IA dissemina as melhores práticas dos mais competentes e acelera a curva de aprendizado.

Exposição à IA generativa no Brasil: perfil dos trabalhadores (% da população ocupada) · Fonte: FGV IBRE com dados da PNAD Contínua, 3º trimestre de 2025 · toque para ampliar

O que isso significa na prática

Trabalhadores mais jovens, com maior escolaridade e no Sudeste estão mais expostos, e também mais bem posicionados para capturar os ganhos de complementaridade com a IA.

Cenário 2

Quando a IA substitui: um deslocamento silencioso e acumulativo

Existe um segundo caminho, mais preocupante e ainda subestimado. Um estudo do Banco Mundial (2025) com dados reais de vagas online nos EUA mostrou que, após o lançamento do ChatGPT, houve queda média de 12% nas vagas das ocupações mais expostas à substituição por IA.

O impacto não é instantâneo. É acumulativo, e cresce conforme a IA amadurece.

O efeito de substituição foi de 6% no primeiro ano, chegando a 18% no terceiro. Os mais afetados são trabalhadores sem diploma avançado e iniciantes de carreira. Os setores mais impactados nos EUA foram apoio administrativo (queda de 40%) e serviços profissionais (queda de 30%).

No Brasil, o FMI estima que cerca de 20% da população ocupada tem alta exposição à IA com baixa complementaridade, ou seja, está vulnerável à perda de emprego sem ganhos compensatórios de produtividade.

Queda de vagas após o ChatGPT (EUA): -6% no 1º ano, -12% no 2º e -18% no 3º · Fonte: Banco Mundial (2025) · toque para ampliar

Esse processo tende a seguir três fases identificadas pela literatura econômica:

As 3 fases da transição

Toque em cada item para ver a explicação

Interativo

Adoção da IA e primeiras mudanças nas tarefas

Empresas incorporam ferramentas de IA. Tarefas rotineiras de processamento de informação são automatizadas. A demanda por vagas começa a se reconfigurar silenciosamente.

Queda de vagas nas ocupações expostas e surgimento de novos papéis

Cargos administrativos e de backoffice perdem espaço. Crescem as funções de supervisão de IA, curadoria de dados e engenharia de prompt. O mercado exige adaptação rápida.

O mercado se divide entre quem captura e quem é deslocado

Salários e produção se concentram nos trabalhadores com alta complementaridade à IA. A desigualdade regional e educacional se aprofunda. O custo da inatividade política aumenta exponencialmente.

Por que isso muda o mercado?

Do emprego de massa ao trabalho de valor: quais tarefas crescem?

O Fórum Econômico Mundial (2025) projeta que, até 2030, serão criadas 170 milhões de novas vagas e destruídas 92 milhões, um saldo líquido de 78 milhões de empregos. Mas o número agregado esconde a distribuição desigual desse impacto.

Hoje, 41% dos empregadores já planejam reduzir equipes onde a IA automatiza tarefas. E 39% do conjunto de habilidades do trabalhador médio ficará obsoleto até 2030.

E há um efeito de segunda ordem ainda mais relevante: o dinheiro do capital não some. Ele migra para quem controla a IA.

Reconfiguração das tarefas e ocupações

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Interativo

Tarefas em declínio

  • Entrada e processamento de dados
  • Atendimento rotineiro ao cliente
  • Suporte administrativo e backoffice

Tarefas em crescimento

  • Engenharia de prompt e curadoria de IA
  • Supervisão, julgamento e gestão de IA
  • Habilidades sociais, cuidado e negociação

Para ver como as pessoas já usam a IA no dia a dia de trabalho, leia também a edição sobre o Anthropic Economic Index.

Exposição à IA por setor

Quais profissões estão mais expostas à IA?

Com base na literatura do FGV IBRE, do FMI e do Banco Mundial, a tabela abaixo organiza o impacto da IA por ocupação, nível de exposição e complementaridade.

O impacto ocupação a ocupação

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Interativo
Ocupação↕Exposição↕Complementaridade↕Consequência↕
Apoio administrativoAlta↓↓ BaixaQueda de 40% nas vagas (EUA)
Contabilidade e financeiroAlta↓ BaixaRedução de postos e pressão salarial
Atendimento ao cliente / call centerMuito alta↔ MédiaReshoring de call centers para países avançados
Jornalismo, marketing e redaçãoAlta↔ AmbíguaDepende da capacidade de adaptação do profissional
Engenharia de software e dadosAlta↑↑ AltaCrescimento estrutural de salários e demanda
Saúde (médicos, enfermeiros)Média↑↑ AltaIA como ferramenta de amplificação, não substituta
Educação, cuidado e serviços presenciaisBaixa↑ AltaTende a ser mais complementada do que substituída

Perfis de trabalhadores: quem ganha, quem perde

Com base na metodologia do FMI aplicada ao Brasil (Pizzinelli et al., 2023), os trabalhadores se dividem em quatro grupos. Estes são os dois grupos de alta exposição:

Alta exposição à IA

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Interativo

Alta exposição + alta complementaridade (cerca de 20%)

Engenheiros · Analistas · Juristas · Médicos especializados · Profissionais de dados

Ganhos de produtividade e salário. Principal beneficiário da transformação.

Alta exposição + baixa complementaridade (cerca de 20%)

Assistentes administrativos · Operadores de dados · Atendentes de call center · Digitadores

Alta vulnerabilidade à perda de emprego sem ganhos compensatórios.

O que fazer?

Qual é a agenda que importa para o Brasil?

Os pesquisadores do FGV IBRE propõem uma agenda de quatro eixos para o Brasil navegar essa transição:

Os 4 eixos da agenda

Toque em cada item para ver a explicação

Interativo

Educação e requalificação

Investir em educação básica de qualidade, habilidades digitais, programação e competências transversais (resolução de problemas, comunicação, trabalho em equipe). Menos de 30% dos brasileiros possuem habilidades digitais básicas, e isso precisa mudar com urgência.

Proteção social e políticas ativas

Fortalecer o seguro-desemprego, os programas de transferência de renda e as políticas ativas de recolocação. Os deslocamentos setoriais da IA tornam esses sistemas críticos para amortecer a transição.

Regulação do uso de IA no trabalho

Criar marcos regulatórios que garantam transparência, explicabilidade e mecanismos de contestação em decisões automatizadas de RH. Controlar o risco de viés algorítmico, a intensificação do trabalho e o monitoramento excessivo.

Políticas de concorrência e difusão tecnológica

Evitar que os benefícios da IA se concentrem em poucas grandes empresas. Promover padrões abertos, ecossistemas de IA acessíveis e apoio às PMEs para adoção da tecnologia.

Para você

O que isso significa para você?

Não se trata de afirmar se a IA vai gerar mais empregos ou menos. Mas há um ponto que já está claro: o trabalho está deixando de ser definido por cargos. E, quando o trabalho é definido por tarefas, quem domina as tarefas certas captura o valor.

Se o impacto for gradual, as empresas adaptam seus processos, requalificam equipes e capturam ganhos de produtividade. Se o impacto acelerar, a mudança deixa de ser operacional e passa a ser estrutural, e o custo da inatividade, para empresas e países, passa a ser exponencial.

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Roger Gouveia

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Roger Gouveia

Estrategista Macro · Mesa Proprietária · Nvcleopar Investimentos

Fontes
  • Schymura, L. G. Impactos do avanço da inteligência artificial no mercado de trabalho: o que fazer? FGV IBRE / Conjuntura Econômica, janeiro de 2026
  • Acemoglu & Restrepo (2018)
  • Brynjolfsson et al. (2023)
  • World Bank (2025)
  • OCDE (2022)
  • Pizzinelli et al. / FMI (2023)
  • World Economic Forum: Future of Jobs Report (2025)

Este material é informativo e não constitui oferta, recomendação ou sugestão de investimento. Rentabilidades passadas não são garantia de resultados futuros.