Em 30 segundos
- 1Exposição ampla: 29,8 milhões de brasileiros, 30% da população ocupada, já estão expostos à IA generativa, segundo o FGV IBRE.
- 2Como complemento: a IA aumentou a produtividade de atendentes de call center em 14% em média, e em 34% entre os iniciantes.
- 3Como substituto: nos EUA, as vagas das ocupações mais expostas caíram 6% no primeiro ano após o ChatGPT e 18% no terceiro, segundo o Banco Mundial.
- 4Saldo positivo, mas desigual: até 2030, 170 milhões de vagas devem ser criadas e 92 milhões destruídas, e 39% das habilidades do trabalhador médio ficarão obsoletas (Fórum Econômico Mundial).
O tema
O que é IA generativa e quantos brasileiros estão expostos?
O debate comum é sobre emprego ou desemprego. Mas isso é uma leitura superficial. O que está em curso é uma reconfiguração profunda de tarefas, competências e poder de barganha. O impacto não é uniforme: varia por setor, escolaridade, região e gênero. Os dados já mostram isso. E as decisões de hoje definem quem captura valor e quem é deslocado.
O que é IA generativa?
Trabalhadores brasileiros expostos à IA generativa, 30% da população ocupada (FGV IBRE, 2025)
Em 2012, esse número era de 23,2 milhões (27%). Antes de tirar conclusões apressadas, é preciso entender que a IA pode agir de dois modos sobre o trabalho.
Cenário 1
Quando a IA ajuda: produtividade e novos papéis
Nesse cenário, a IA amplifica o que o trabalhador já faz. Ela automatiza as partes mais repetitivas das tarefas e libera o profissional para funções de maior julgamento, criatividade e interação humana.
Um estudo de Brynjolfsson et al. (2023) com atendentes de call center mostrou que o acesso a um assistente de IA aumentou a produtividade em 14% em média, com impacto de 34% para trabalhadores iniciantes. A IA dissemina as melhores práticas dos mais competentes e acelera a curva de aprendizado.
O que isso significa na prática
Trabalhadores mais jovens, com maior escolaridade e no Sudeste estão mais expostos, e também mais bem posicionados para capturar os ganhos de complementaridade com a IA.
Cenário 2
Quando a IA substitui: um deslocamento silencioso e acumulativo
Existe um segundo caminho, mais preocupante e ainda subestimado. Um estudo do Banco Mundial (2025) com dados reais de vagas online nos EUA mostrou que, após o lançamento do ChatGPT, houve queda média de 12% nas vagas das ocupações mais expostas à substituição por IA.
O efeito de substituição foi de 6% no primeiro ano, chegando a 18% no terceiro. Os mais afetados são trabalhadores sem diploma avançado e iniciantes de carreira. Os setores mais impactados nos EUA foram apoio administrativo (queda de 40%) e serviços profissionais (queda de 30%).
No Brasil, o FMI estima que cerca de 20% da população ocupada tem alta exposição à IA com baixa complementaridade, ou seja, está vulnerável à perda de emprego sem ganhos compensatórios de produtividade.
Esse processo tende a seguir três fases identificadas pela literatura econômica:
As 3 fases da transição
Toque em cada item para ver a explicação
Adoção da IA e primeiras mudanças nas tarefas
Empresas incorporam ferramentas de IA. Tarefas rotineiras de processamento de informação são automatizadas. A demanda por vagas começa a se reconfigurar silenciosamente.
Queda de vagas nas ocupações expostas e surgimento de novos papéis
Cargos administrativos e de backoffice perdem espaço. Crescem as funções de supervisão de IA, curadoria de dados e engenharia de prompt. O mercado exige adaptação rápida.
O mercado se divide entre quem captura e quem é deslocado
Salários e produção se concentram nos trabalhadores com alta complementaridade à IA. A desigualdade regional e educacional se aprofunda. O custo da inatividade política aumenta exponencialmente.
Por que isso muda o mercado?
Do emprego de massa ao trabalho de valor: quais tarefas crescem?
O Fórum Econômico Mundial (2025) projeta que, até 2030, serão criadas 170 milhões de novas vagas e destruídas 92 milhões, um saldo líquido de 78 milhões de empregos. Mas o número agregado esconde a distribuição desigual desse impacto.
Hoje, 41% dos empregadores já planejam reduzir equipes onde a IA automatiza tarefas. E 39% do conjunto de habilidades do trabalhador médio ficará obsoleto até 2030.
E há um efeito de segunda ordem ainda mais relevante: o dinheiro do capital não some. Ele migra para quem controla a IA.
Reconfiguração das tarefas e ocupações
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Tarefas em declínio
- Entrada e processamento de dados
- Atendimento rotineiro ao cliente
- Suporte administrativo e backoffice
Tarefas em crescimento
- Engenharia de prompt e curadoria de IA
- Supervisão, julgamento e gestão de IA
- Habilidades sociais, cuidado e negociação
Para ver como as pessoas já usam a IA no dia a dia de trabalho, leia também a edição sobre o Anthropic Economic Index.
Exposição à IA por setor
Quais profissões estão mais expostas à IA?
Com base na literatura do FGV IBRE, do FMI e do Banco Mundial, a tabela abaixo organiza o impacto da IA por ocupação, nível de exposição e complementaridade.
O impacto ocupação a ocupação
Toque numa linha para destacar, ou no cabeçalho para ordenar
| Ocupação↕ | Exposição↕ | Complementaridade↕ | Consequência↕ |
|---|---|---|---|
| Apoio administrativo | Alta | ↓↓ Baixa | Queda de 40% nas vagas (EUA) |
| Contabilidade e financeiro | Alta | ↓ Baixa | Redução de postos e pressão salarial |
| Atendimento ao cliente / call center | Muito alta | ↔ Média | Reshoring de call centers para países avançados |
| Jornalismo, marketing e redação | Alta | ↔ Ambígua | Depende da capacidade de adaptação do profissional |
| Engenharia de software e dados | Alta | ↑↑ Alta | Crescimento estrutural de salários e demanda |
| Saúde (médicos, enfermeiros) | Média | ↑↑ Alta | IA como ferramenta de amplificação, não substituta |
| Educação, cuidado e serviços presenciais | Baixa | ↑ Alta | Tende a ser mais complementada do que substituída |
Perfis de trabalhadores: quem ganha, quem perde
Com base na metodologia do FMI aplicada ao Brasil (Pizzinelli et al., 2023), os trabalhadores se dividem em quatro grupos. Estes são os dois grupos de alta exposição:
Alta exposição à IA
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Alta exposição + alta complementaridade (cerca de 20%)
Engenheiros · Analistas · Juristas · Médicos especializados · Profissionais de dados
Ganhos de produtividade e salário. Principal beneficiário da transformação.
Alta exposição + baixa complementaridade (cerca de 20%)
Assistentes administrativos · Operadores de dados · Atendentes de call center · Digitadores
Alta vulnerabilidade à perda de emprego sem ganhos compensatórios.
O que fazer?
Qual é a agenda que importa para o Brasil?
Os pesquisadores do FGV IBRE propõem uma agenda de quatro eixos para o Brasil navegar essa transição:
Os 4 eixos da agenda
Toque em cada item para ver a explicação
Educação e requalificação
Investir em educação básica de qualidade, habilidades digitais, programação e competências transversais (resolução de problemas, comunicação, trabalho em equipe). Menos de 30% dos brasileiros possuem habilidades digitais básicas, e isso precisa mudar com urgência.
Proteção social e políticas ativas
Fortalecer o seguro-desemprego, os programas de transferência de renda e as políticas ativas de recolocação. Os deslocamentos setoriais da IA tornam esses sistemas críticos para amortecer a transição.
Regulação do uso de IA no trabalho
Criar marcos regulatórios que garantam transparência, explicabilidade e mecanismos de contestação em decisões automatizadas de RH. Controlar o risco de viés algorítmico, a intensificação do trabalho e o monitoramento excessivo.
Políticas de concorrência e difusão tecnológica
Evitar que os benefícios da IA se concentrem em poucas grandes empresas. Promover padrões abertos, ecossistemas de IA acessíveis e apoio às PMEs para adoção da tecnologia.
Para você
O que isso significa para você?
Não se trata de afirmar se a IA vai gerar mais empregos ou menos. Mas há um ponto que já está claro: o trabalho está deixando de ser definido por cargos. E, quando o trabalho é definido por tarefas, quem domina as tarefas certas captura o valor.
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Roger Gouveia
Estrategista Macro · Mesa Proprietária · Nvcleopar Investimentos
Fontes
- Schymura, L. G. Impactos do avanço da inteligência artificial no mercado de trabalho: o que fazer? FGV IBRE / Conjuntura Econômica, janeiro de 2026
- Acemoglu & Restrepo (2018)
- Brynjolfsson et al. (2023)
- World Bank (2025)
- OCDE (2022)
- Pizzinelli et al. / FMI (2023)
- World Economic Forum: Future of Jobs Report (2025)
Este material é informativo e não constitui oferta, recomendação ou sugestão de investimento. Rentabilidades passadas não são garantia de resultados futuros.

